Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul
Tentar relatar a história do CELAFISCS é um dos desafios maiores, pois conforme os especialistas da área, sempre terá o viés da óptica de quem resolveu liderar o processo. Mas, como enfrentar desafios é uma constante na casa da bicicleta de cinco estrelas, mesmo correndo esse risco, só nos resta começar... E por onde? Outro desafio! Mas quem buscar as origens no clube que tinha o nomes das “Terras do Tijucussu”, como era antes conhecida São Caetano do Sul, provavelmente vai encontrar o “fio da meada”.
O Tijucussu Clube foi fundado por um grupo de jovens no período mais inquieto e florescente da história recente, a segunda década dos anos 60. Querendo romper as barreiras do tradicional, os jovens estudantes cabeludos de São Caetano, lançavam em uma sexta-feira 13 de agosto de 1965 a Instituição que contribuiu com o tempo para dar a São Caetano muito do perfil atual. Por lá passaram entre outros, Plínio Marcos, Geraldo Vandré, Amilson Godoi (Zimbo Trio) que fortaleceram a ala cultural de vanguarda do grupo. Mas foi na área esportiva que a Instituição obteve o maior impacto social, com a criação da Olimpíada Colegial que nascia em pleno 1968. Fábrica de lideranças estudantis em período de repressão, soube usar as brechas dos motes verde-oliva: “Brasil, potência olímpica” e do “Esporte é Cultura” e assim entrar em contato direto com a comunidade escolar. O evento incluía não só as competições esportivas, mas criava uma forte ligação cultural com a cidade que era enfeitada pelas bandeiras, fitas e outros adereços das escolas no Concurso das Torcidas, ou no Concurso das Rainhas, e principalmente no Baile das Olimpíadas. Tamanha a amplitude levou o evento passou a fazer parte do Calendário Oficial da Secretaria de Estado de Turismo, trazendo um Governador de Estado (Laudo Natel) pela primeira vez em visita oficial ao município, com direito a cobertura de TV ao vivo da Abertura e de muitos jogos.
Os organizadores sempre enfatizavam que a Olimpíada do Tijucussu não era apenas um conjunto de competições esportivas, mas “uma festa de congraçamento da comunidade”. Sem dúvida, alguns dos diferenciais da Olimpíada do Tijucussu eram as competições de conhecimentos gerais, matemática, artes fotográficas e ... um Simpósio... coordenado pelo Departamento de Pesquisa do Clube, que já havia feito alguns levantamentos na cidade, inclusive de comportamento sexual, motivo de perplexidade para a sociedade de então.
Como conclusão dos primeiros Simpósios, foi proposta à Comissão Municipal de Esportes a criação de escolinhas de esporte; que incentivariam a prática permanente, corrigindo o viés de evento isolado dos jogos. Em seguida, uma comissão especial foi criada pelo então presidente, João Paschoal Bonaparte, com o objetivo de implementar as escolinhas recém-criadas. Havia necessidade de ampliar o espaço físico com a construção de centro esportivos comunitários e a preparação de recursos humanos: ali nascia o PLANESPORTE, nome dado pelo Prof Laércio Elias Pereira, que fazia parte da tal comissão que ainda tinha a Profa Norma Pinto de Oliveira, Prof Emédio Bonjardim, Prof Carlos Gomes Ventura, Prof Atilano dos Santos e Victor Matsudo, então acadêmico de Medicina e Supervisor das Olimpíadas, que tinha em Dante De Rose Jr o seu coordenador geral.
Não demorou muito para que detectassem a necessidade de um órgão que avaliasse o efeito dos programas de treinamento propostos pelas escolinhas nas crianças e adolescentes de uma forma mais científica. Nascia então a idéia de ser ter um Laboratório com esse objetivo. Matsudo, então acadêmico da Santa Casa de São Paulo, onde teve José da Silva Guedes como Patrono, Walter Edgard Maffei como Paraninfo e José Soares Hungria Filho como chefe do Dep. de Ortopedia, vai para a Universidade de Illinois-EUA em 1973 buscar os subsídios para o PLANESPORTE, como parte de seu Internato Eletivo da Santa Casa de São Paulo, onde é adotado intelectualmente pelo Dr Benjamin H. Massey, um dos primeiros Ph.D. na história das ciências do esporte. No retorno é surpreendido pelo grupo do PLANESPORTE com a inauguração do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul, o LAFISCS: nos baixos das arquibancadas das piscinas do Estádio Lauro Gomes: uma sala e uma bicicleta ergométrica estavam esperando para fazer história...
Em fevereiro de 1974, sem festa, sem discursos, Ana Maria Sodré Paes de Almeida, hoje Tarapanoff e Victor Matsudo, médicos recém-formados começavam oficialmente as atividades do LAFISCS, como o apoio da PMSCS do então prefeito H. Walter Braido e particularmente de João Paschoal Bonaparte, presidente da Comissão Municipal de Esportes.
O objetivo central era ampliar o saber sobre o impacto da atividade física, em diversas dimensões e gradientes, na saúde do ser humano ao longo do ciclo da vida: começando pelas crianças e adolescentes, passando para os adultos e finalmente nos idosos. Mas como investigar em um país de terceiro mundo, então sob rígida ditadura, que usava o esporte como instrumento da ideologia de poder? Assim se foi criando uma filosofia própria de trabalho, em que aprender a caminhar com as próprias pernas era fundamental. E como faze-lo na área de Ciências do Esporte? Procurando adequar os avanços internacionais, o saber de ponta à realidade nacional. Como obter credibilidade? Buscando respeitar os princípios científicos mais sérios, através de instrumentos de medida que fossem simples e que exigissem técnicas o menos complexas, mas que ao mesmo tempo respeitassem os critérios de validade, reprodutibilidade, objetividade e que pudessem estar ao alcance de mais profissionais e não ser privilégio de pequenos grupos. Procurava-se assim, não só respostas para projetos de pesquisa individuais; mas construir um compromisso social, em que o processo de criação do conhecimento fosse o mais democrático e que os resultados do mesmo fossem o mais eficazmente levado à população.
Assim, os pioneiros logo se deram conta que uma das melhores formas de propagar suas idéias seria compartilhar as inovadoras propostas com colegas das áreas não só de Medicina, mas de Educação Física, Psicologia e outras. Nasceu aí a idéia do laboratório começar a receber pessoas que tivessem o “vírus da volúpia do saber” nesta área. Após um ano de atividade, começava então o Estágio de Formação Básica em Pesquisa em Ciências do Esporte. Alcançava-se um novo patamar, onde além da produção científica, passava a formar e capacitar profissionais que poderiam seguir nessa trilha em diversos centros do país e do exterior.
De LAFISCS para CELAFISCS
Os primeiros estudos realizados foram apresentados no Congresso Brasileiro de Medicina Esportiva, realizado em Porto Alegre em 1975. O impacto foi tal que logo surgiu o convite, através do Dr. Osmar de Oliveira, para um trabalho também pioneiro que se iniciava no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa, que seria comandado pelo Cel Maurício Assumpção Cardoso, ambos membros honorários da casa.
Com a chegada das primeiras gerações de estagiários, a quantidade de trabalhos se ampliou rapidamente e já no Congresso Brasileiro de Medicina Esportiva de 1977, o Laboratório era responsável pelo maior número de “papers” apresentados. Dentre eles estavam duas contribuições originais, o uso da Sociometria na área esportiva (Sandra Cavasini e Sonia Cazzelatti) e o Teste de Corrida de 40 segundos. Foi talvez o mais significativo Congresso para a formação do espírito de grupo, marca registrada do centro. Colegas viajaram de avião com o nome trocado por convidados que receberam o bilhete mas não podiam viajar; outros foram pelas estradas; os 10 dividiram 3 quartos, onde literalmente por toda a noite treinavam as apresentações para alcançarem no outro dia o que com o tempo se convencionou chamar de “padrão CELAFISCS”.
O ânimo geral gerado pelo impressionante impacto no evento foi resfriado quando na volta fomos informados que as mudanças ocorridas na Prefeitura de São Caetano, particularmente na Comissão Municipal de Esportes, alcançavam negativamente o Laboratório, com a demissão de dois dos três contratados e a idéia de extinção do mesmo. Essa dramática demonstração que o poder público nem sempre reconhece a importância do trabalho científico amadureceu no grupo a idéia de criação de um órgão autônomo: assim o LAFISCS se tornou CELAFISCS (Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul) com registro em 30 de março de 1981.
